Pôr do sol. A luz fraca alaranjada penetrava o ambiente sem censura, através das cortinas lisas. Os iluminava na cama de forma simples e bela. Entrelaçados. Ele não parava de falar sobre o quanto o seu dia havia sido cansativo, mas, ainda assim, produtivo, no trabalho. Ela não prestava atenção em absolutamente nada do que ele dizia, mas lhe dava total atenção. Observava suas formas, a maneira como falava, seu cabelo, seus olhos, suas expressões. Todos os detalhes e de forma demorada. Se deliciava. E foi de repente. Assim, sem querer:
- Acho que eu amo você.
Ele não se assustou. Parou de falar e deu aquele sorriso de canto de boca típico e disse:
- Você acha?
- É, eu acho.
- Não tem certeza?
- Não vou dizer que tenho certeza.
- E por que não?
- Ah, não sei. Acho que você vai me julgar de alguma forma errada. E se não for isso tudo? Prefiro te deixar na dúvida.
- Eu que fico na dúvida? Tem certeza que não é você?
- Mas se eu disser que tenho certeza que te amo vai ficar tudo diferente. Vai existir toda uma carga. Como se você agora tivesse a obrigação de dizer que me ama também só pra eu não me sentir mal ou coisa do tipo.
- Então, você tem certeza que me ama?
- Já disse que eu só acho.
- Então, tá. Acho que te amo também.
- Tá vendo! Olha aí. Tá dizendo só por dizer. Só porque eu disse.
- E como você pode ter tanta certeza de que estou sendo falso?
- Porque você acabou de cair direitinho na minha teoria.
- Não gosto da sua teoria.
- Mas é uma teoria universal!
- Desculpa, não devo fazer parte desse universo.
- Me diz a sua opinião, então.
- Isso não se aplica a todos. Tenho o direito de discordar. Não tenho medo de ouvir um eu te amo e não poder dizer de volta. Assim como não tenho medo de dizer e não ouvir. As pessoas nem sempre estão em equilíbrio quanto aos sentimentos. Deviam saber disso. Haveria menos mágoa.
- É, vai... até que faz sentido.
- Digo o que sinto e espero ouvir o que sentem de verdade, mesmo que uma dúvida seja a verdade. Pode acreditar quando me exponho. Não procuro agradar, procuro ser sincero. E todos se agradam, no final das contas.
- É, vai... até que faz sentido.
- Digo o que sinto e espero ouvir o que sentem de verdade, mesmo que uma dúvida seja a verdade. Pode acreditar quando me exponho. Não procuro agradar, procuro ser sincero. E todos se agradam, no final das contas.
- Você se expôs. Quer dizer que você me ama, então?
Mais um sorriso de canto de boca.
- Já disse que eu só acho.
Os últimos raios de sol se escondiam atrás da montanha. Nenhum dos dois percebia a escuridão chegando. Continuaram ali, em silêncio. Mergulhados em pensamentos. Cada qual com um sorriso no rosto. E adormeceram, aos poucos.
VIVIANE BOTELHO
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