...olhe para o céu...
Pareceu-me uma boa idéia. Suspirei, fitando o céu parcialmente limpo, as estrelas pareciam gotas de luzes próximas à imponente Lua. Evitei pensar muito e me concentrei no brilho que irradiava de vários lugares lá em cima. Senti paz em meio à branda escuridão. O contorno das nuvens e o vento suave em meu rosto, tudo muito... lindo. Por uns dois minutos, ficamos calados, apenas esperando que nossos corpos abandonassem a tensão do momento. Funcionou como mágica.
_ Acha que vamos cair daqui ou coisa parecida? - questionei.
_ Não.
_ E se fôssemos? Quero dizer, e se soubesse que nossas
vidas acabariam nesse minuto? - As palavras eram para serem pensamentos
silenciosos e íntimos. Por algum motivo, brotaram como uma pergunta, no
mínimo, estranha.
O fitei, notando que
também observava o céu. Desejei ter sido capaz de conter as bobagens que falei.
_ É difícil saber. Não
posso ter certeza do que passaria pela minha mente.
Mordi o lábio, pretendendo
manter a boca fechada.
_ E você? O que faria?
A verdade saiu facilmente.
Simples como respirar.
_ Aproveitaria meus últimos momentos.
_ Humm... acho que está
certa. Uma boa forma de se despedir da vida seria justamente desfrutando-a até
o último segundo.
Girei a cabeça sorrindo para
ele e o encontrei encarando-me. Em um gesto carinhoso e cuidadoso, ele passou o
braço à minha volta, inclinando a cabeça até que sua testa repousasse em meu
ombro esquerdo.
_
O que está fazendo? - minha voz saiu entrecortada.
_ Tentando descobrir como me sentiria se estivesse aproveitando
agora meus últimos minutos.
Ele pareceu concentrado e
eu rocei sutilmente minha face em seus cabelos perfumados.
_ Está fazendo da forma
errada. - adverti em um cochicho.
No momento em que ele ergueu a cabeça, nossos rostos ficaram a centímetros de distância. Nem a falta
de luz foi capaz de ofuscar o brilho intenso de seus olhos. Suas sobrancelhas
uniram-se, expressando uma tortura silenciosa que ecoou em mim. Seja lá o que ele estivesse sentindo, doeu no meu peito, como se eu fosse uma extensão de
seu corpo.
Sorri, na esperança de que
ele relaxasse. Deu certo. Ele retribuiu com seu mais esplendoroso sorriso.
_ Deixa eu te ajudar a descobrir o que sentiria. - minha voz
tremeu um pouco, em uma mistura de timidez e nervosismo.
Permaneceu imóvel,
facilitando as coisas para mim. Meus dedos trêmulos tocaram seus lábios. Os
contornei, sentindo a temperatura do meu corpo variar entre o frio e o calor.
Ousei, afagando-lhe a
face. Ele não fechou os olhos, pelo contrário, os manteve abertos e
totalmente concentrados em mim. Incapaz de negar à minha pele um contato maior
rocei a ponta do meu nariz no seu. Era tão difícil viver sem aquele toque!
Desfrutando de um momento que podia não se repetir, fiz uma linha invisível com
o nariz, do queixo dele até a orelha. Por alguns segundos, fiquei totalmente
absorta pelo cheiro familiar e cativante do homem que tinha mais de mim do que
qualquer outro no mundo.
Não houve uma guerra interior entre o coração e a
razão. Eu estava vazia de sentimentos controversos, não tinha pensamentos
irônicos ou piadas para maquiar minhas neuras. Éramos só Eu e Ele. Mal nos
tocávamos e ainda assim, era tão íntimo quanto um casal fazendo amor.
por fim, nos beijamos e foi como se fosse a primeira vez...
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